Com um outono ainda meio envergonhado, mas, inequivocamente, já instalado na cidade, a tarde do passado dia 17 de outubro, banhada que estava então por uma luz suave, quente e acolhedora, tipicamente outonal, convidava a um novo passeio à descoberta de uma renovada mão-cheia de algumas das mais notáveis árvores, arbustos e até trepadeiras do admirável e tão valioso património vegetal portuense. A sétima visita da quarta edição da Rota das Árvores do Porto levar-nos-ia a deambular por dois espaços localizados em pleno centro histórico da cidade Invicta, começando pelo Jardim da Cordoaria.

Também conhecido como Jardim de João Chagas, o Jardim da Cordoaria localiza-se no antigo Campo do Olival, um terreiro extramuros junto à porta do Olival da muralha fernandina da cidade, reservado para o usufruto público já desde o século XIV. Aí, onde em 1611 D. Filipe II mandaria construir a Alameda do Olival, o primeiro destes espaços portuenses destinados ao passeio público, seria instalada, em 1661, a Cordoaria Nova, estando esta na origem da designação atual do jardim.

Emílio David, o arquiteto paisagista alemão chamado à cidade em 1864 para desenhar os jardins do Palácio de Cristal, viria a ser, igualmente, o autor do projeto para o Jardim da Cordoaria, apresentado em 1866 à aprovação da Câmara Municipal por Alfredo Allen, visconde de Villar d’Allen, que era, à data, vereador do pelouro dos jardins.

Apesar das transformações pelas quais já passou ao longo de mais de século e meio de existência, nomeadamente com a passagem do devastador ciclone de 1941, que arrasou quase por completo o seu arvoredo, e a reformulação do desenho original, de configuração vincadamente romântica, no ano 2000, no âmbito da Porto 2001, o jardim mantém-se como um dos mais visitados, reconhecíveis e acarinhados da cidade.

Partindo do elegante coreto do jardim, a curta distância se fez a primeira paragem, em plena Alameda dos Plátanos, indubitavelmente um dos mais emblemáticos espaços da Cordoaria. Como o nome assim indica, a alameda é ladeada por duas filas de belíssimos plátanos (Platanus x hispanica), um híbrido de origem europeia entre o plátano-ocidental (Platanus occidentalis), de origem norte-americana, e o plátano-oriental (Platanus orientalis), de origem euro-asiática. Sob as suas copas monumentais, então já tingidas pelos calorosos dourados e acobreados próprios da estação, ficámos a conhecer melhor as diferenças entre as folhas e as infrutescências de cada uma das três espécies. Classificados como Arvoredo de Interesse Público desde 2005, os plátanos da Cordoaria não deixam, certamente, ninguém indiferente e, para tal, em muito contribuirão as suas bases grotescamente deformadas, de aparência muitíssimo inusitada. Apesar da sua invulgaridade, não são caso único na Europa, havendo registo, pelo menos em Inglaterra, de mais um punhado deles. Os ingleses, sempre muito criativos nestas coisas da botânica, batizaram-nos de “plátanos-baobá”, pela semelhança que apresentam com aquelas majestosas árvores africanas.

Deixando os “plátanos-baobá” da Cordoaria para trás, fomos de seguida conhecer junto ao lago uma outra espécie, de enganadora aparência; uma australiana casuarina (Casuarina cunninghamiana). Apesar da Austrália não ser naturalmente terra de pinheiros, a casuarina é também chamada de “pinheiro-da-austrália”, pela semelhança entre as suas “folhas” e as agulhas dos pinheiros. As “folhas” que nela vemos, no entanto, não são folhas, mas sim caules, finíssimos, separados em vários segmentos em cujas uniões se encontram as verdadeiras folhas, em forma de escama e de muito pequena dimensão. É uma casuarina dioica, ou seja, com machos e fêmeas em indivíduos diferentes e, por ali, tivemos a oportunidade de observar os dois: o macho exibindo delicadas inflorescências de coloração castanho-avermelhada e a fêmea ostentando um grande número de cones, semelhantes a pequeninas pinhas.

Meia dúzia de passos mais à frente houve que, forçosamente, fazer-se uma nova paragem. Tínhamos acabado de alcançar um lugar muito especial da Cordoaria onde, a partir de um único ponto, se podem admirar, e comparar, três nobres representantes de um género botânico que reúne algumas das árvores mais sublimes que temos o privilégio de ver nos nossos jardins: o género Cedrus. Tratava-se, portanto, de um cedro-do-líbano (Cedrus libani), nativo das montanhas do mediterrâneo oriental, com os ramos tipicamente dispostos em planos horizontais, de um cedro-do-atlas (Cedrus atlantica), nativo da norte-africana cordilheira do Atlas, de copa delicada e de textura rendilhada e, por último, um cedro-do-himalaia (Cedrus deodara), nativo da região dos Himalaias, de copa com uma aparência plumosa e ramos pendentes. Todos exibiam sobre os seus ramos, em diferentes estágios de maturação, cones masculinos produtores de pólen.

Continuando o passeio em redor do lago, num instante avançámos até à América do Norte, onde fomos visitar duas gigantes que por ali nos aguardavam: uma sequoia-sempre-verde (Sequoia sempervirens) e uma sequoia-gigante (Sequoiadendron giganteum). A primeira cresce naturalmente ao longo de grande parte das regiões costeiras da Califórnia, e de uma pontinha da costa sul do Oregon. Já a segunda apresenta uma distribuição natural mais restrita, nas encostas ocidentais da Sierra Nevada californiana. Ambas detêm recordes, não fosse a árvore mais alta do mundo uma sequoia-sempre-verde — a Hyperion — e a mais corpulenta, com maior peso e volume, uma sequoia-gigante — a General Sherman. Entre as duas comparámos os cones e as sementes, os troncos e as cascas, as formas e os feitios de cada uma; tudo muito digno de respeito e admiração.

Enquanto nos entretínhamos com as respeitosas sequoias, eramos observados por um outro não menos imponente americano, que pacientemente aguardava os seus “cinco minutos de fama”, bem merecidos, convenhamos. Era um liquidâmbar (Liquidambar styraciflua), a árvore do “âmbar líquido”. Nativo do este da América do Norte e das zonas montanhosas do México e da América Central, já andará a encantar pela Europa desde o século XVII, e é com a chegada dos dias mais curtos e frios que se percebe bem o porquê. No outono, as suas delicadas folhas em forma de estrela metamorfoseiam-se de um verde-escuro e brilhante numa vibrante paleta de amarelos, laranjas, vermelhos e púrpuras, algo que já por ali se conseguia observar. Para além das folhas, vimos também os seus vistosos frutos espinhosos, semelhantes a ouriços.

Na orla do jardim, um outro bonito norte-americano merecia igualmente a nossa atenção. Tratava-se de um ainda jovem bordo-prateado (Acer saccharinum), que ocorre naturalmente desde o sudoeste do Canadá até ao centro e este dos Estados Unidos da América. A “prata” que lhe está no nome provém da sua muito distinta folhagem, profundamente lobada, verde na face superior e branca na inferior. No outono, no entanto, esta dualidade cromática desvanece-se, ao adquirir a folhagem uma tonalidade amarelo-pálida, por vezes pintalgada de laranja, vermelho e púrpura, atributos que o exemplar da Cordoaria já exibia.

Após o passeio pelas Américas, regressámos à Austrália, onde fomos apreciar a árvore mais alta, e de silhueta mais estranha, surpreendente e exótica, do jardim: uma araucária-de-queensland (Araucaria bidwillii), com mais de 40 metros de altura e classificada desde 2005, como os seus vizinhos plátanos. A bunya-bunya, assim lhe chamaram os povos nativos australianos, tem a capacidade de produzir pinhas de gigantesco tamanho, pesadas, escamosas e assustadoramente espinhosas. No seu interior, guardam um muito apetecível tesouro, uma semente, um grande “pinhão” comestível, de muito agradáveis textura e sabor, semelhantes aos das “nossas” castanhas. Durante a visita, nem uma destas pinhas fascinantes se conseguiu avistar, mas, certamente, hão de regressar, para todos voltarem a impressionar.

Já quase de saída, fomos, finalmente, visitar um — que em boa verdade, eram três — belíssimo representante da flora nacional: um teixo (Taxus baccata), uma espécie atualmente rara na natureza, que no nosso país já só ocorre nas serras do Gerês, da Estrela e do Caramulo. Para além da sua folhagem verde-escura e troncos castanho-avermelhados, mostrou-nos uma excelsa produção de falsos frutos, que mais não são do que as sementes parcialmente envolvidas por um arilo; a componente carnuda, vermelha e muito vistosa destes “frutos”. Sendo o teixo uma espécie dioica, dúvidas não houve de que se tratava de uma menina. Meninos, aparentemente, por ali não havia, mas iriamos ainda encontrar um, no Parque das Virtudes, a próxima paragem da tarde.

Deixando, assim, para trás a Cordoaria, prosseguimos encosta abaixo em direção ao íngreme vale do rio Frio, onde nas primeiras décadas do século XIX, nos terrenos da Quinta da Virtudes, Pedro Rodrigues, então conhecido como o “Pedro das Virtudes” dirigia um horto para a produção e venda de plantas. Em 1844, chegar-lhe-ia ao portão um jovem beirão, de seu nome José Marques Loureiro em busca de trabalho e cujos conhecimento e paixão pelas plantas levariam a um estrondoso desenvolvimento do horto, do qual acabaria por tomar posse em 1863. Era tal a fama do Horto das Virtudes, o “horto do senhor Loureiro”, que era considerado uma atração turística da cidade, pela extraordinária diversidade, raridade e exoticidade das plantas que exibia e vendia. Em 1904, seis anos após a morte de Marques Loureiro, foi-lhe prestada uma justa homenagem, erigindo-se, no Jardim da Cordoaria, uma estátua em sua memória: a “Flora”, de autoria de Teixeira Lopes.

Desses tempos botânica e horticulturalmente gloriosos pouco chegou aos nossos dias. No entanto, o Parque das Virtudes encerra, ainda, uma coleção e diversidade florísticas notáveis, bem como algumas das mais belas e inesquecíveis árvores da cidade, sempre merecedoras de uma visita. E foi mesmo isso que fizemos, começando por um grande viburno-cheiroso (Viburnum odoratissimum). Asiática, esta pequena árvore exibe flores brancas e perfumadas entre a primavera e o verão, às quais vai “roubar” o seu nome comum. Aquando da nossa visita, apresentava a sua costumeira copa verde-clara, perene, sarapintada por pequenos frutos vermelhos e algumas folhas de idêntica coloração.

Após esta breve paragem, seguimos em direção a sul, onde num patamar virado ao Douro fomos encontrar aquela que, pela altura da nossa visita, era a árvore mais esplendorosa das Virtudes; uma extraordinária paineira-rosa (Ceiba speciosa). De copa despida de folhas, mas vestida por uma profusa floração de grandes flores cor-de-rosa, esta árvore nativa do Brasil e da Argentina exibia também um tronco e ramos que, embora de aspeto muito invulgar, verdes e cobertos de espinhos, são típicos da espécie. Por mostrar ficaram os frutos, que virão mais tarde, lá para o final da primavera e no verão. Estes, quando abrirem, revelarão as fibras brancas designadas por “paina”, que estão na origem do nome “paineira”.

A curta distância, bem agarrada a um dos altos muros que suportam os socalcos do jardim, estava uma asiática figueira-trepadeira (Ficus pumila), uma planta de assídua presença nos jardins portuenses. Sendo uma figueira, onde estariam então os seus figos? A busca não foi demorada, e em pouco tempo os avistámos escondidos por entre a folhagem; grandes, verdes e de textura esponjosa.

Ainda com o Douro como pano de fundo, fomos ao encontro de um pequeno castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum), um bonito europeu, nativo da Grécia, da Albânia e da Bulgária. Apresentava-se já quase completamente despido de folhas, e das suas magníficas flores primaveris não havia nem sinal. O que queríamos ver, no entanto, estava lá; os seus grandes gomos castanho-avermelhados, cobertos por uma resina protetora, de viscosa consistência.

Voltámos de seguida ao interior do jardim, onde nos aguardava o menino teixo (Taxus baccata), já mencionado na Cordoaria. Sendo um macho, não tinha arilos vermelhos para nos mostrar, mas sim uma miríade de pequeninos cones, ainda imaturos que, quando amadurecerem, e o pólen que contêm se começar a libertar, adquirirão uma bonita tonalidade amarelada, que lhe dará uma aparência muito distinta daquela exibida pelas meninas.

Salvo raras exceções, imaturos estavam também os pequenos e roliços frutos de uma grande pimenteira-do-brasil (Schinus terebinthifolius), também conhecida por aroeira-vermelha, e que ali perto vegetava. Nativa da América do Sul, é uma de várias espécies a partir das quais se produz a pimenta-rosa. O exemplar das Virtudes sabe-se que foi semeado pelo próprio Marques Loureiro em 1880, tendo, assim, a bonita idade de 146 anos.

Num pulinho, e alguns lanços de escadas depois, fomos admirar uma bela trepadeira norte-americana, a vinha-virgem-da-virgínia (Parthenocissus quinquefolia). Sempre muito vistosa, é no outono, quando as suas verdadeiras cores se revelam, que mais nos deslumbra, não só com as suas folhas, que adquirem tons vibrantes de vermelho e púrpura, mas também com os seus frutos, esféricos e de coloração azul-escura. Para além das folhas e dos frutos, contemplámos-lhe ainda as pequeninas ventosas com que firmemente se prendem a muros e paredes.

Para o fim da visita deixámos uma muito especial velha amiga, com a qual já nos tínhamos cruzado um par de vezes. Com uma altura superior a trinta e cinco metros e com mais de duzentos anos de vida, a assombrosa nogueira-do-japão (Ginkgo biloba), a maior do nosso país e uma das maiores da Europa, é a verdadeira rainha das Virtudes. Está classificada desde 2005, como os plátanos e a araucária da Cordoaria. Nativa da China, a espécie foi avistada pelos europeus pela primeira vez no Japão, provindo daí a referência ao país do sol nascente no seu nome comum. Pelas suas invulgares e delicadas folhas em forma de leque, encontra-se agora disseminada um pouco por todo o mundo e, quando chega o outono, faz-se cobrir por um régio manto de um luminoso amarelo-dourado, efémero, mas que para sempre nos fica gravado na retina, de tão belo que é. Quando a visitámos, esta fabulosa transformação começava, timidamente, a acontecer. Para compensar a falta de folhas douradas, “presenteou-nos” com uma “chuva” de “alperces de prata”, os frutos não muito bem cheirosos que os ginkgos femininos produzem no outono. Esta árvore maravilhosa reservava-nos, ainda, uma surpresa que, curiosos, fomos espreitar: os “Chi-Chi”; crescimentos lenhosos semelhantes a uma mama que surgem no tronco e nos ramos mais volumosos das nogueiras-do-japão mais antigas.

No regaço da sua copa, terminámos a visita a refletir sobre como a chegada do outono desencadeia alterações nas árvores de folha caduca, trazendo tonalidades quentes às paisagens até que se encontrem desprovidas de folhas; um fenómeno que resulta da adoção de uma estratégia de conservação de energia, água e nutrientes muito eficiente por parte destes seres vivos.

A função das folhas, quando sazonalmente cessa para determinadas espécies de árvores, está apenas a começar no sistema vivo que é o solo, pois estas contribuem para o seu enriquecimento, através da transformação da matéria orgânica em nutrientes disponíveis para serem novamente absorvidos pelas plantas. Para além disso, promovem uma absorção mais lenta da água da chuva e evitam cheias e a erosão da camada superficial do solo. Por fim, criam ainda as condições propícias para que diversos seres-vivos o possam habitar.

As folhas caídas são, por isso, muito mais do que um sinal da chegada das estações frias. Constituem um elemento essencial para a saúde ecológica dos espaços verdes e para a resiliência ambiental das cidades, demonstrando que, na natureza, aquilo que parece ser um fim é, na verdade, o início de um novo ciclo.

No final de tão frutuosa visita ficou a nota de que o ciclo da Rota das Árvores de 2026 não havia ainda terminado. Completar-se-á em breve, a 21 de novembro, no Parque de São Roque.

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A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto, e enquadra-se no projeto Florestas Urbanas Nativas no Porto – FUN Porto.