O dia 19 de setembro apresentava-se quente e seco e as grandes protagonistas da visita, as árvores, não perderam a oportunidade de nos recordar da sua importância. Sob as copas generosas e protegidos pela sua sombra, o calor abafado tornava-se quase impercetível, enquanto no grupo cresciam a curiosidade e entusiamo pelas descobertas que esta nova caminhada haveria de relevar.
A sexta Rota das Árvores do Porto levou-nos ao Parque da Quinta de Lamas e ao Parque Central de Asprela, dois dos mais recentes espaços verdes da cidade, inseridos numa das suas zonas mais dinâmicas e movimentadas. Guiados pelo Arquiteto Paisagista Paulo Farinha Marques o grupo percorreu o espaço que o próprio conceptualizou, inspirado na história do local e na evolução humana. Espaços pensados como uma moderna “savana africana” de onde originamos, marcada pela alternância entre clareiras abertas e manchas de arvoredo mais denso, estes espaços desempenham um papel fundamental na gestão das águas fluviais, contribuindo para reduzir o risco de inundações junto à linha de metro, que passa tão próximo das ribeiras que brotam do granito característico da cidade. Concebido segundo as Soluções Baseadas na Natureza, este corredor verde estabelece ligações entre as várias faculdades do Polo Universitário da Asprela e o Hospital de São João, promovendo a mobilidade sustentável, a valorização ecológica do território e melhores condições de saúde, lazer e bem-estar para quem o frequenta.
Inaugurado em 2015, o Parque da Quinta de Lamas, outrora ocupado por campos agrícolas, faz hoje a ligação entre a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e a Faculdade de Economia e Gestão da Universidade do Porto (FEP). Ladeando a alameda principal, encontram-se os “frescos” choupos-brancos, ou álamos-brancos (Populus alba), bem-adaptados a climas mais quentes e secos, a primeira de muitas espécies a prender a nossa atenção. Típicos de zonas húmidas e de leito de cheia, estão habituados a variações climáticas acentuadas e resistem à secura, ao vento e a diferentes tipos de solo. A brisa suave que se fazia sentir atraía o nosso olhar para as suas copas, tornando evidente o contraste de tonalidades: as folhas lobadas do choupo-branco apresentam uma página superior verde, enquanto a inferior tem indumento branco, composto por vários pelos esbranquiçados que refletem a luz solar, à semelhança do próprio tronco. Uma inteligente adaptação milenar a tempos de seca.
Seguiram-se, perto de uma das clareiras do parque, os carvalhos, alguns produzidos no âmbito do FUTURO, plantados em 2017 e que já nos ultrapassavam vastamente em altura. Típico do norte de Portugal, bem-adaptado ao nosso clima e produtor de bolotas que alimentam o gado miúdo que por ali pastava, o carvalho-alvarinho (Quercus robur) surgia acompanhado esporadicamente pelo carvalho-negral (Quercus pyrenaica), que se distingue do primeiro pela sua folha tomentosa na página inferior – coberta de pelos – e aveludada, que, à semelhança do choupo-branco, o ajuda a resistir a períodos mais secos. Um pouco mais à frente, avistámos o plátano (Platanus orientalis), facilmente reconhecível pela copa densa de verde-brilhante e pelo tronco marmoreado. Esta espécie é particularmente valorizada pela sua notável resistência à poluição atmosférica urbana, razão pela qual foi amplamente plantada em muitas cidades europeias, nomeadamente Londres.
Na envolvente das depressões destinadas à retenção e infiltração da água surgiam ainda bordos, ou padreiros (Acer pseudoplatanus), de copa densa, folhagem abundante e flores amarelo-esverdeados. Com preferência por solos húmidos e boa tolerância à poluição, foram escolhidos para integrar este “espaço esponja”. Ao lado, saltavam à vista os pequenos frutos vermelhos do pilriteiro (Crataegus monogyna), que amadurecem no final do verão. Com vários troncos que se desenvolvem a partir da base, este grande arbusto é frequentemente utilizado em sebes e vedações devido aos seus espinhos longos e aguçados, que afastam predadores e tornam o pilriteiro um excelente abrigo para inúmeras espécies de fauna.
Uns passos mais à frente, deparámo-nos com uma espécie de formato familiar: o pinheiro-manso (Pinus pinea). A copa inconfundível repleta de folhas em formato de agulha, o ritidoma espesso e fendido e as suas famosas sementes – os tão apreciados pinhões – marcam a paisagem onde quer que estejam instalados. A madeira, resistente, forte e flexível, foi amplamente utilizada na construção naval, nomeadamente nos mastros que sustentavam as velas dos navios. Mas o pinheiro-manso possui ainda outra vantagem que contribui para a sua longevidade: sendo uma resinosa, a sua resina ajuda a proteger o cerne contra bactérias, insetos e fungos. Capaz de prosperar mesmo em solos pobres, continuará certamente a encantar os visitantes do Parque da Asprela durante muitos anos.
De seguida, fomos ao encontro de um não muito distante freixo (Fraxinus angustifolia). Característico do topo de leito de cheia, as suas folhas são compostas, dispostas em lados opostos, finas e pequenas deixando passar alguma luz solar; embora a sua sombra não seja particularmente densa, é surpreendentemente fresca. Para ajudar a manter a humidade e a reduzir a temperatura envolvente, o freixo transpira praticamente durante todo o dia, mantendo os estomas abertos durante períodos mais prolongados
para libertar vapor de água. Graças à sua capacidade de tolerar períodos de seca e variações no solo, é uma das espécies com maior presença em contexto urbano.
Com grande capacidade de adaptação e resistente às variações das condições ambientais, a próxima espécie que nos levou a fazer uma paragem foi a bétula, ou bidoeiro (Betula sp.). Típica de ambientes húmidos e frescos, distingue-se pelas suas folhas caducas de margem irregularmente serrilhada e pelo tronco de casca esbranquiçada ou prateada, característica que lhe vale frequentemente a designação de “noiva da floresta”. Da mesma família, mas com maiores exigências hídricas, encontrámos também o amieiro (Alnus glutinosa). A sua casca apresenta tonalidades acinzentadas quando a árvore é jovem, tornando-se gradualmente castanho-escura com a idade. Muito comum nas margens de rios e ribeiras, onde beneficia de solos permanentemente húmidos, foi uma das espécies que tivemos a oportunidade de observar de perto ao longo do percurso. Destaca-se ainda pela capacidade de fixar o azoto atmosférico através das associações simbióticas nas raízes, enriquecendo naturalmente o solo.
Atravessando a rua, encontrávamo-nos agora nas traseiras da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) e prestes a entrar no Parque Central da Asprela, inaugurado em 2022, onde fomos recebidos por belíssimos exemplares de salgueiros. O salgueiro-negro, ou borrazeira-preta (Salix atrocinerea), é autóctone de Portugal, típico de zonas húmidas, de casca fendida e folha caduca. Resiliente e altamente adaptativo, foi preservado em grande número durante a construção do parque. Encontrámos também outros salgueiros (Salix sp.), alóctones, que crescem igualmente junto a linhas de água. Avistámos mais amieiros, alguns existentes antes da intervenção, com cerca de 30 metros de altura! Foi também ocasião para recordar um curioso encontro entre a botânica e as tradições populares: a madeira do amieiro, assim como do salgueiro e do choupo, era utilizada para fazer tamancos, tão característicos do nordeste português.
Sob a sombra das árvores e com o aroma fresco da hortelã a pairar no ar, dirigimo-nos à ribeira da Asprela. As margens e o leito naturalizados encontram-se repletas de fetos e tifas, essenciais para a estabilização das margens e para a redução da erosão. Junto do local onde a ribeira da Asprela se encontra com a ribeira da Manga, já era possível avistar poldras artificiais, um pouco mais à frente no percurso. Se os percursos pedonais e cicláveis principais do parque apresentam inclinações reduzidas e são acessíveis aos visitantes, a calçada rústica e as poldras apelam aos mais aventureiros. Mais do que elementos paisagísticos, constituem soluções importantes para a mobilidade sustentável e para a resiliência a episódios de cheia. De forma discreta durante o verão e mais evidente nos períodos de maior pluviosidade, a água absorvida pelo parque é temporariamente armazenada e libertada de forma gradual, reduzindo a velocidade de escoamento e aliviando a pressão sobre o sistema de drenagem urbano. Uma verdadeira Solução Baseada na Natureza ao serviço da cidade.
Durante o percurso, deparámo-nos com vários exemplares de sabugueiro (Sambucus nigra). Este arbusto autóctone, característico das margens dos cursos de água, providenciava uma agradável sombra graças às suas grandes folhas. É, contudo, mais conhecido pelas suas bagas e flores. As pequenas flores brancas, reúnem-se em grandes corimbos – dispostas no mesmo plano – e são extremamente aromáticas, frequentemente utilizadas na culinária e em preparações tradicionais.
Seguindo o percurso pedonal que acompanha a ribeira que dá o nome ao parque, observámos um choupal, repleto de choupos-negros (Populus nigra), de folha verde-brilhante e triangular. Aqui e ali pontuavam o espaço alguns troncos de madeira morta, recheados de vida. Esta engenhosa solução fornece não só alimento para organismos saproxílicos, mas também um precioso habitat para muitos outros seres vivos, enquanto mantém a matéria orgânica disponível no ecossistema.
Limitando o parque a norte, avistámos os singulares pinheiros-mansos, agora acompanhados de elegantes ciprestes (Cupressus sempervirens). Uma conífera “sempre-verde”, de porte colunar, e autóctone de Portugal, apresentava já os seus gálbulos — pequenos cones arredondados. É também tolerante à seca e adapta-se muito bem ao clima português.
Com mais um vislumbre de um velho choupo-negro, exemplar original marcado por um tronco torcido e retorcido, consequência da sua antiga utilização como suporte de videiras (vinha do forcado), a visita aproximava-se do fim. Já na zona do parque com maior arborização, paramos junto de alguns exemplares da “árvore nacional”. O sobreiro (Quercus suber) está bem-adaptado a climas mediterrâneos e é muito frequente na Península Ibérica. De folha persistente, copa irregular e médio porte, é símbolo inconfundível da flora portuguesa. Produtor de bolota, como o carvalho, é mais famoso pela sua cortiça, onde lideramos mundialmente na sua exportação. Quer seja para arrolhar bebidas ou ir ao espaço, é flexível, resistente, um excelente isolante térmico e material ablativo, e os seus fins são limitados apenas pela imaginação humana.
Findava assim a visita da Rotas das Árvores do Porto, já com incontáveis histórias para partilhar e muito para explorar, pintando de verde a cinzenta granítica cidade.
A próxima rota realizar-se-á a 17 de outubro, no Jardim da Cordoaria e no Parque das Virtudes, dois espaços emblemáticos situados no coração da Invicta.
FOTOS | Créditos: ©2026CRE.Porto.malmeida; ©2026CRE.Porto.amourao; ©2026JoãoTenentedeSeixas
A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto, e enquadra-se no projeto Florestas Urbanas Nativas no Porto – FUN Porto.