18 de julho 2026 – A Quinta de Salgueiros, atualmente em processo de reabilitação para acolher o novo Parque da Quinta de Salgueiros – Porto Biolab, abriu as suas portas para uma viagem que cruzou botânica, história e cultura. Entre os jardins, escadarias e antigos muros deste espaço, em tempos residência senhorial e local onde Jacinto de Matos, um dos mais destacados jardineiros-paisagistas portuenses da primeira metade do século XX desenvolveu a sua atividade, hoje chamado a tornar-se um laboratório vivo dedicado aos serviços dos ecossistemas e à adaptação às alterações climáticas, percorremos um itinerário onde cada árvore serviu de ponto de partida para contar uma história maior: a da longa convivência entre a sociedade humana e o mundo vegetal. Mais do que identificar espécies, a visita procurou revelar a forma como as árvores moldaram paisagens, inspiraram mitos, alimentaram populações, sustentaram economias e permaneceram vivas na literatura, na pintura e na memória coletiva.
O percurso começou junto do carvalho-alvarinho (Quercus robur), uma das árvores que mais profundamente marcou a identidade europeia. Reverenciado por diferentes povos como árvore sagrada, associado aos deuses do céu e do trovão e frequentemente escolhido como símbolo de soberania, justiça e comunidade, o carvalho acompanhou durante séculos a construção material e simbólica da Europa. Da sua madeira nasceram embarcações, catedrais e palácios; das suas galhas produziu-se a tinta ferrogálica que registou parte significativa da história europeia; da sua presença nas florestas nasceu também um imaginário onde representa firmeza, perseverança e nobreza de carácter. Como escreveu Peter Young, a grandeza do carvalho não reside na ostentação, mas na integridade.
Seguiu-se o sobreiro (Quercus suber), árvore inseparável da paisagem mediterrânica e da história de Portugal. Se o carvalho foi frequentemente venerado, o sobreiro conquistou um lugar diferente: o da árvore discreta que acompanha silenciosamente o quotidiano das populações. A sua sombra protegeu rebanhos, a cortiça revolucionou múltiplas atividades humanas e o montado afirmou-se como um dos mais antigos e bem-sucedidos sistemas agro-silvo-pastoris da Europa, conciliando produção, biodiversidade e conservação da natureza. Foi também oportunidade para recordar como esta árvore atravessa a literatura, a pintura e a memória rural portuguesa, tornando-se, sem procurar protagonismo, um dos mais reconhecidos símbolos da identidade nacional.
A viagem prosseguiu com o pinheiro-bravo (Pinus pinaster), espécie intimamente ligada à costa portuguesa e à construção naval. A sua madeira e a sua resina acompanharam séculos de navegação, enquanto as florestas dunares ajudaram a fixar areias e a proteger o litoral. Mas o pinheiro revelou também uma dimensão menos conhecida: o fascínio estético que as pinhas despertaram em diferentes culturas, surgindo representadas na arte decorativa, na joalharia ou mesmo refletindo padrões matemáticos presentes na natureza. A árvore que protegeu dunas foi também a árvore que, em muitos sentidos, sonhou tornar-se navio, como terá escrito Ramón Gómez de la Serna.
Mais adiante, o choupo-negro (Populus nigra) conduziu-nos até às margens dos rios, lugares de transição que tantas culturas associaram à passagem entre mundos, à memória e ao luto. Árvore das alamedas e das galerias ribeirinhas, foi igualmente símbolo de liberdade durante a Revolução Francesa, representando o enraizamento dos direitos, a estabilidade das instituições e a esperança de uma sociedade mais justa. Falou-se ainda do seu valor agrícola, da leveza da sua madeira, da sua presença na pintura e no paisagismo e desfizeram-se alguns mitos, como a ideia de que o seu característico “algodão” é responsável pelas alergias primaveris. As palavras de Eugénio de Andrade recordaram que os choupos continuam a habitar a paisagem da memória, num lugar onde a vida e a perda coexistem.
O loureiro (Laurus nobilis) levou-nos até à cultura clássica. Associado desde a Antiguidade à proteção divina, à inspiração poética e à glória, permanece ainda hoje presente no vocabulário e nos símbolos do quotidiano. Laureados, bacharéis ou “colher os louros” são termos e expressões que testemunham uma herança cultural com mais de dois mil anos. Entre utilizações alimentares, medicinais e agrícolas, foi sobretudo a sua dimensão simbólica que marcou esta etapa da visita, revelando como uma simples árvore conseguiu atravessar séculos de literatura sem perder o significado de excelência, criação e reconhecimento.
O percurso terminou junto do ulmeiro (Ulmus spp), talvez a espécie cuja história melhor ilustra a complexidade da relação entre o homem e a natureza. Durante séculos, desenhou a paisagem agrícola europeia, sustentando vinhas, delimitando campos e tornando-se elemento inseparável de muitas comunidades rurais. A prática romana do arbustum, em que o ulmeiro amparava a vinha, difundiu um mesmo património genético por grande parte da Europa, permitindo a expansão desta paisagem cultural, mas escondendo uma fragilidade que só muito mais tarde se revelaria. A chegada da grafiose provocou uma das maiores perdas arbóreas da história recente, alterando profundamente a paisagem, na Europa e sobretudo na América do Norte, obrigando investigadores e gestores a reconhecer que a perda de uma árvore representa muito mais do que a perda de madeira: significa a diminuição da qualidade ambiental, da identidade dos lugares, do conforto das cidades e dos inúmeros serviços que os ecossistemas prestam diariamente. O ulmeiro, outrora símbolo de fidelidade e melancolia, torna-se agora um símbolo de resiliência e um poderoso alerta para a importância da diversidade biológica.
Foi precisamente aqui, no final da visita, que a história do ulmeiro encontrou a história da Quinta de Salgueiros. Depois de décadas de abandono, este espaço prepara-se agora para acolher um laboratório dedicado ao estudo dos serviços dos ecossistemas implementando várias Soluções Baseadas na Natureza, procurando compreender o valor que a natureza acrescenta às cidades e a forma como pode torná-las mais resilientes. A história do ulmeiro – da sua importância cultural ao impacto profundo da sua perda – tornou-se uma das primeiras grandes lições sobre aquilo a que hoje chamamos serviços dos ecossistemas. Terminava assim a visita onde, de certo modo, havia começado: mostrando que compreender o passado das árvores é também uma forma de pensar o futuro das nossas paisagens.
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A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto, e enquadra-se no projeto Florestas Urbanas Nativas no Porto – FUN Porto.



