A 18 de setembro de 1865, três anos após o início da construção, num ambiente festivo e com grande pompa e circunstância, eram inaugurados o Palácio de Cristal e os seus jardins e abria ao público a primeira Exposição Internacional a realizar-se em Portugal.
Precisamente 160 anos e sete meses depois desse dia memorável, a 18 de abril de 2026, dava-se início à quarta edição da Rota das Árvores do Porto, naquele que, desde então, se tem mantido como um dos mais belos, emblemáticos e visitados jardins portuenses. Entre abril e novembro, ao longo de oito visitas, a rota percorrerá um total de 15 espaços, entre jardins, praças e cemitérios, e dará a conhecer não só as suas árvores mais distintas, mas também as histórias, as curiosidades e as caraterísticas mais notáveis de cada uma delas.
A visita teve início no Jardim Emílio David, o jovem arquiteto paisagista berlinense, antigo aluno da Escola Real de Jardineiros de Potsdam, a quem, em 1864, por indicação de Peter Joseph Lenné, um dos mais respeitados arquitetos paisagistas de então e, à data, diretor da escola, viria a ser encomendado o desenho para os jardins. Foi neste jardim, de desenho formal, apresentando ao centro um conjunto de canteiros relvados e floridos, desenhando uma grande elipse, que fomos ao encontro das primeiras árvores a visitar naquela tarde: as
araucárias-de-norfolk (Araucaria heterophylla). A araucária-de-norfolk, tal como todas as espécies de araucária, ocorre naturalmente apenas no hemisfério sul, sendo endémica da australiana ilha de Norfolk, uma ilha mais pequena do que o Porto, rodeada pelas águas do oceano Pacífico. São árvores imponentes, altíssimas, de aparência elegante, exótica e muito invulgar. Não haverá, certamente, quem lhes consiga ficar indiferente. Como o nome heterophylla indica, têm folhas com diferentes morfologias: as jovens em forma de garra ou gancho e as adultas em forma de escama. Para além deste curioso pormenor, e da magnificência destas grandes árvores, observaram-se também, empoleiradas sobre os ramos, as esféricas e escamosas pinhas que a espécie produz e que contêm sementes, ou pinhões, comestíveis. A acompanhar a araucária estava uma bonita árvore de origem europeia; uma faia-de-folhas-vermelhas (Fagus sylvatica ‘Atroporpurea’). Fazendo jus ao nome, exibia-se no seu melhor esplendor primaveril, com uma copa exuberante, de vibrantes folhas vermelho-acobreadas.
Uns passos mais à frente, aguardava-nos um perfumado, multicaule e surpreendente, cedro-branco ou cedro-do-oregon (Chamaecyparis lawsoniana), nativo da América do Norte. Mesmo lado, e passando quase despercebida, estava uma bem nossa conhecida nogueira-do-japão (Ginkgo biloba). É uma das espécies mais antigas da Terra e, apesar da referência no nome ao país do sol nascente é, na verdade, uma árvore nativa das florestas de Zhejiang, na China. As suas inconfundíveis e delicadas folhas em forma de leque, bilobadas, apresentavam-se em tons verdes-claros, típicos da primavera e do verão, ainda a muitos meses de distância dos afamados dourados outonais.
Fomos, de seguida, ao encontro de outras duas notáveis árvores asiáticas. A primeira, uma graciosa árvore-de-júpiter (Lagerstroemia indica). Ainda sem a sua magnífica floração estival, mostrava o seu tronco suave e luzidio, de coloração amarelo-canela-claro, marmoreado em tons de rosa, verde e cinza. A segunda, um escultural bordo-do-japão-de-folhas-recortadas-vermelhas (Acer palmatum ‘Dissectum Atropurpureum’), exibia uma formidável copa de aspeto delicado e plumoso, mostrando, aqui e ali, as suas diminutas dissâmaras esverdeadas e tingidas de vermelho. Ao virar da esquina, em plena Alameda dos Plátanos, estava uma outra asiática de cuja casca interna se obtém uma especiaria que há séculos faz parte do nosso quotidiano: a canela. Tratava-se, pois, de uma airosa caneleira (Cinnamomum verum), nativa do Sri Lanka. Como alusão ao antigo nome do país — Ceilão — também é conhecida por (Cinnamomum zeylanicum).
Seguindo depois em direção ao Pavilhão Rosa Mota, fomos admirar uma pequena árvore que, não fosse pela sua inusitada aparência; pré-histórica, escamosa, quase reptiliana, poderia passar despercebida. Era nada mais nada menos do que uma jurássica araucária-do-chile (Araucaria araucana), nativa do Chile e da Argentina. De todas as araucárias, é a mais resistente ao frio, podendo viver mais de 1000 anos. Contornando o pavilhão, deparámo-nos, junto ao lago, com um bonito grupo de cedros-do-líbano (Cedrus libani). São nativos do Líbano, da Síria e da Turquia, mas pela sua grande beleza, encontram-se em parques e jardins um pouco por todo o mundo. Encontravam-se em plena produção de folhas novas, de um verde-claro ofuscante, estando particularmente deslumbrantes. Descendo pela encosta até ao roseiral, fomos depois visitar um braquiquito (Brachychiton populneus), nativo da Austrália. Pela sua capacidade de armazenar água no tronco chamam-lhe também de “árvore garrafa” ou ainda de “árvore-dos-barquinhos”, pela forma dos seus frutos, semelhante à de uma canoa. Ao longe avistavam-se as copas de um grupo de excelsos metrosíderos (Metrosideros excelsa). Lá chegados, observámos as folhas bicolores e as impressionantes raízes aéreas desta árvore nativa da Nova Zelândia.
A curta distância, sete “irmãs” chamavam por nós. Atendemos ao chamamento e fazendo uma breve pausa no passeio, repousámos os olhos nas sete magníficas, esguias e altaneiras palmeiras-de-leque-do-méxico (Washingtonia robusta), as mais formosas, e famosas, da cidade, classificadas desde 2019. Em pano de fundo, igualmente recortadas contra o azul do céu, avistavam-se as rendilhadas copas de um par de vetustos e norte-africanos cedros-do-atlas (Cedrus atlantica). Dali, voltando a subir a encosta, caminhámos até à Avenida das Tílias, formal, longa de 300 metros e desde sempre muito concorrida. Ali falámos sobre as quatro espécies de tília mais frequentes no nosso país, todas de origem europeia: a tília-prateada (Tilia tomentosa), a tília-de-folhas-grandes (Tilia platyphyllos), a tília-folhas-pequenas (Tilia cordata) e a tília-europeia (Tilia x europaea), um híbrido natural entre as duas últimas. Depois de uma curta paragem no Miradouro da Torre da Marca, voltámos a descer a encosta, deambulando pelo bosque, frondoso e ensombrado, ao encontro de algumas das suas mais ilustres inquilinas.
A primeira com que nos cruzámos foi uma bela faia-europeia (Fagus sylvatica), firmemente agarrada ao solo, de duplo fuste, cinzento e liso, sob uma coroa de folhas translúcidas, de um verde-claro cintilante. Outras por ali havia, e entre elas, escondido, estava um bem português choupo-branco (Populus alba), de folha “prateada” e de tronco branco adornado por pequeninos “diamantes” negros. Mais à frente, quase lado a lado, aguardavam-nos um castanheiro (Castanea sativa), oriundo da zona que dos Balcãs se estende até às montanhas do Cáucaso, mas bem “enraizado” no nosso país, e um florido castanheiro-da-índia (Aesculus hippocastanum), nativo da Grécia, da Albânia e da Bulgária. Igualmente belos e floridos estavam os lusitânicos bordos ou padreiros (Acer pseudoplantanus), de folha semelhante à do plátano e de casca rosada, atestando a sua já respeitosa idade. Passando pela Gruta de Camões, seguimos pela Avenida dos Castanheiros-da-Índia onde, numa derradeira paragem pelos jardins do palácio, fomos espreitar a bonita floração de um castanheiro-da-índia-de-flores-rosadas (Aesculus x carnea), um híbrido entre o europeu Aesculus hippocastanum e o norte-americano Aesculus pavia.
Por um pequeno portão demos, depois, entrada nos domínios da Quinta da Macieirinha, última morada do rei Carlos Alberto da Sardenha, que nela viveu em 1849, exilado, durante os quatro últimos meses da sua vida.
Num dos patamares superiores fomos encontrar mais uma araucária, desta feita a do Paraná (Araucaria angustifolia), nativa, como o nome bem indica, do sul do Brasil. Apesar de muito escondida pela vegetação circundante, pudemos observar parte da sua muito característica copa, semelhante a um grande guarda-sol. Ao lado, ainda mais discreta, estava uma papirífera neve-de-verão (Melaleuca linariifolia). Como da sua “neve” de pequeninas flores brancas não havia, ainda, sinal, restou-nos apreciar a sua primorosa casca, desprendendo-se em finíssimas “folhas de papel”. Mais abaixo, num outro patamar e com soberba vista para o Douro, por nós aguardava um magnífico sobreiro (Quercus suber), a árvore nacional de Portugal. Para nossa satisfação, exibia, ainda, um tronco revestido pela primeira cortiça, a “cortiça virgem”; escultural, muito fendida, rugosa e rústica, de uma sublime coloração castanho-clara. Partimos, de seguida, em direção à antiga casa da quinta, hoje Museu Romântico, ensombrada pela copa, imensa, de um plátano (Platanus x hispanica). Esta grande árvore, muito comum nas nossas cidades pelas belas sombras que no proporciona, é um híbrido de origem europeia entre o euroasiático Platanus orientalis, e o norte-americano Platanus occidentalis.
Feitas as despedidas à antiga Quinta do Sacramento, dois portões depois entrávamos na antiga Quinta do Meio, hoje mais conhecida por Casa Tait. Deve o seu nome a William Chaster Tait; britânico ligado ao comércio do vinho do Porto e grande entusiasta da fauna e da flora, que a adquiriu em 1900 e onde vivia desde a década de 1880.
Tal como o jardim da Quinta da Macieirinha, o jardim da Casa Tait distribui-se por uma série de patamares orientados a poente, ao Douro e ao Atlântico, e é detentor de um conjunto de árvores fabulosas. Sem demoras, que a tarde já ia alta, lá as fomos descobrir e cumprimentar. Começámos por uma magnólia-de-folhas-grandes (Magnolia grandiflora), classificada em 2021. Apesar de ser nativa do sudeste dos Estados Unidos da América, dá-se muito bem por terras lusas, atingindo dimensões assombrosas, como muito bem comprova este incrível exemplar da Casa Tait. Ainda sem as duas cheirosas flores grandes, a todos maravilhou com o seu tronco retorcido e com as suas folhas duplamente lustrosas e aveludadas, verde-escuras e acobreadas. Não longe, espreitava outro gigante norte-americano, um tulipeiro-da-virgínia (Liriondendron tulipifera).
Alto, muito alto, de nobilíssimo porte, está, como a sua vizinha magnólia, classificado desde 2021. Mostrou-nos, orgulhoso, e com muita razão, as suas folhas, de invulgar recorte, e as suas “tulipas”, verde-amareladas, manchadas de laranja na base, que começavam, então, a emergir. Acompanhava-o um grande teixo (Taxus bacatta), uma espécie nativa de Portugal, de crescimento lento e de grande longevidade, hoje rara de encontrar na natureza. Exibia as suas folhas verde-escuras e um esbelto tronco, manchado em tons de rosa. Um pouco mais à frente no caminho, por entre a folhagem de uma australiana árvore-da-roda-de-fogo (Stenocarpus sinuatus), vislumbrava-se, ainda, o que restava da sua vistosa floração, disposta em umbelas vermelho-alaranjadas. Caminhado por entre camélias (Camellia japonica), centenárias, já quase desprovidas da sua floração invernal, fomos espreitar, ao longe, o antigo pomar onde, junto ao muro poente, se encontrava um eucalipto-vermelho (Corymbia ficifolia), uma árvore de pequeno porte, nativa do sudeste da Austrália. Apesar do nome, a floração, então ainda inexistente, ocorre noutras cores para além do vermelho, mais comum. Este exemplar da Casa Tait, a par de um outro que existe no bosque, destaca-se pela sua floração cor-de-laranja, que surgirá lá mais para o início do verão.
A visita aproximava-se a passos largos do seu fim, mas tempo houve ainda para uma última paragem, junto daquele que é um dos maiores e mais antigos tulipeiros-da-virgínia do Porto, possivelmente com mais de 250 anos de idade e classificado desde 1950. Na presença de tamanha grandiosidade florística, os participantes foram convidados a fazer parte de uma dinâmica que permitiu apresentar dois serviços de ecossistemas fornecidos por árvores de grande porte e longevidade. Assim, através da observação direta, os participantes identificaram estruturas que suportam a vida, e, por meio da medição da envergadura, estimaram o perímetro da árvore, refletindo a dimensão do carbono armazenado.
Terminava assim em grande, literalmente, este bonito passeio pelos Jardins do Palácio de Cristal, da Quinta da Macieirinha e da Casa Tait, verdadeiras bibliotecas botânicas, vivas, repletas de histórias para contar e de encantar, em plena cidade do Porto.
O passeio está, no entanto, apenas a começar. Continua no dia 16 de maio, ali pela zona da Boavista.
