A 16 de maio de 2016, passado que estava quase um mês após o início da quarta edição da Rota das Árvores do Porto, era hora de retomar o passeio. E assim foi. No início de uma luminosa e arejada tarde de primavera partiríamos à descoberta de três novos espaços, de natureza e dimensão muito distintas, onde outra mão-cheia de algumas das mais ilustres árvores da cidade nos aguardava.
Começámos a visita pelo jardim da Casa-Museu Marta Ortigão Sampaio, um pequeno oásis citadino, de natureza intimista, escondido, e protegido, do bulício da rua pelas paredes modernistas da casa, projetada por José Carlos Loureiro e construída em 1958.
As boas-vindas foram-nos dadas por uma das maiores árvores do jardim; uma robusta magnólia-de-flores-grandes (Magnolia grandiflora), firmemente ancorada no solo por uma intricada e escultórica rede de raízes. Nativa do sudeste dos Estados Unidos da América, exibia o seu sempre-verde manto de folhas grandes e rígidas, lustrosas e de coloração verde-escura na face superior. Ainda que timidamente, começava, também, a mostrar o elegante “veludo” acobreado que faz crescer na face inferior das suas folhas quando os dias se tornam mais longos, quentes e luminosos. Lá bem no cimo da copa, mostrou-nos ainda uma das suas “flores grandes”, alvas e bem-cheirosas.
Não muito longe, e de folhagem igualmente bem-cheirosa, erguia-se, imponente, um nobre loureiro (Laurus nobilis). Nativo de Portugal, o loureiro é uma espécie dioica, produzindo flores femininas e masculinas em árvores separadas. Após uma minuciosa análise da copa, avistou-se, por entre a densa folhagem, um aglomerado de frutos, ainda imaturos, que nos veio confirmar estarmos perante uma elegante “loureira”.
Junto ao pequeno lago, sobre nós se assomava a maior e mais alta de todas as árvores do jardim: um magnífico cedro-do-atlas (Cedrus atlantica). Nativas da norte-africana cordilheira do Atlas, são árvores de excecional elegância e beleza. Não exibia, ainda, os seus característicos cones, de forma semelhante à de pequenas barricas. Quando surgirem, erguer-se-ão sobre os ramos, no centro das, igualmente distintivas, rosetas de folhas em forma de agulha.
Encostadas ao muro fundeiro do jardim, fomos encontrar uma asiática árvore-da-borracha (Ficus elastica), uma velha conhecida dos nossos lares. No jardim, com espaço e terra abundantes, “esticou-se”, cresceu e criou um bonito emaranhado de raízes, terrestres e aéreas. Para além destas, admirámos as suas folhas, coriáceas e luzidias, e falámos sobre as suas flores invertidas. Tinha por companhia uma “refrescante” neve-de-verão, uma deslumbrante australiana também conhecida por árvore-do-papel (Melaleuca linariifolia). Mostrou-nos tudo a que tínhamos direito: na copa, a “neve” de verão; a sua profusa e perfumada floração de pequenas espigas de flores brancas e, no tronco, a sua casca, que se desprendia em suaves e finas “folhas de papel”.
Por ali se encontrava, também, um pequeno diospireiro (Diospyrus kaki), nativo da China e do Japão, carregado de pequenos, ainda verdes, mas muito vistosos frutos. Lá mais para o outono, quando estiverem bem maduros, doces e de coloração mais calorosa, farão as delícias de miúdos e graúdos. Mais notável era a floração de um pequeno grupo de manacás-do-sul (Brunfelsia australis). É nativo do sul do Brasil e da Argentina, e entre os manacás, é o que tem a área de distribuição natural mais a sul. Como outros da família, este manacá é conhecido pelas suas flores docemente perfumadas, que mudam de cor, de púrpura a violeta e, finalmente, a branco, com o passar dos dias.
Deixámos para o fim da visita uma viçosa nogueira-comum (Juglans regia), nativa da península balcânica e de partes da Ásia. Introduzida em Portugal pelos romanos, que pela sua magnificência a associaram a Júpiter, rei dos deuses, está hoje naturalizada no norte do país. Por entre a sua bela folhagem observavam-se as “bolotas” ou “nozes de Júpiter”, os seus frutos, portanto, ainda verdes.
Chegava a hora da despedida, e de rumar ao próximo jardim a visitar naquela tarde, o da Rotunda da Boavista.
Após uma curta caminhada, chegávamos então à rotunda e ao seu grande jardim público, de formato circular, projetado por Jerónimo Monteiro da Costa e inaugurado em 1906, naquele que tinha sido um antigo espaço de feiras, de corridas de bicicletas e até de touradas.
No centro do jardim ergue-se, imponente, aquele por será, porventura, o seu mais (re)conhecido monumento. Levantado em homenagem aos Heróis da Guerra Peninsular, encontra-se rodeado por um rico e diversificado arvoredo, parte dele já centenário e igualmente monumental.
Com tanto por onde escolher, começámos por dois carvalhos nativos da América do Norte; o carvalho-americano (Quercus rubra) e o carvalho-dos-pântanos (Quercus palustris). Apesar da família e origem geográfica em comum, as suas folhas são tão diferentes que não há forma de os confundir. As do carvalho-americano são grandes e levemente lobadas. As do carvalho-dos-pântanos, por sua vez, são mais pequenas e profundamente lobadas. Para além das folhas, comparámos também as bolotas de cada um, igualmente muito distintas entre si.
Dali fomos ao encontro de uma das mais vistosas árvores do jardim, um metrosídero (Metrosideros robusta). Nativo da Nova Zelândia, é uma árvore de aspeto delicado, de folhagem verde-escura, geralmente bastante discreta. No entanto, com a chegada dos dias mais quentes no final da primavera e início do verão, cobre-se de mimosos pompons de luminosas flores vermelhas que não deixam ninguém indiferente. Depois de lhe admiramos a folhagem, distintamente recortada no ápice, partimos em direção a um respeitoso grupo de palmeiras-de-saia-da-califórnia (Washingtonia filifera). Como o nome bem indica, são nativas da Califórnia, mas também do Arizona e da mexicana Baixa Califórnia. De aspeto robusto, “vestem”, por vezes, uma longa “saia” de folhas secas junto ao espique, ou tronco, característica que está, também, referenciada no seu nome.
Continuando a caminhar, circum-navegando o jardim, fomos conhecer um grupo de asiáticas fotínias-da-china (Photinia serratifolia), muito apreciadas pelas suas copiosas e alvas inflorescências primaveris e pelas suas folhas jovens que surgem em tons de vermelho.
Sob a copa de uma das fotínias mais antigas, os participantes exploraram a importância das árvores para o bem-estar do ser-humano e o papel invisível que desempenham para além das suas características morfológicas. Aí, o grupo foi convidado a refletir sobre particularidades destes seres-vivos como a realização da fotossíntese e da transpiração, a captação da radiação solar e a retenção de poluentes: particularidades que nos aproximam, que nos unem às árvores e se traduzem em benefícios para a qualidade de vida e para a resiliência das cidades. Num momento tranquilo de respirações profundas, a aproveitar as substâncias químicas naturais que as árvores libertam, e que reduzem os níveis de stress, concluiu-se que estes magníficos seres vivos são também imprescindíveis para a nossa saúde mental.
Agradecidos, continuámos, ainda com mais vontade, até um outro grupo de árvores, desta feita de australianos braquiquitos (Brachychiton populneus). Fomos encontrá-los com as copas engalanadas por abundante floração, composta por pequeninas e esbeltas flores em forma de sino, de cor verde-clara a rosa-pálido. Avistavam-se também os singulares “barquinhos” que estão por trás da designação “árvore-dos-barquinhos”, ou seja, os seus frutos, de formato semelhante ao de uma pequena canoa. Um pouco mais à frente, observámos um outro membro da família, uma, ainda pequena, árvore-de-fogo-de-illawarra (Brachychiton acerifolius), de folhas lobadas e famosa pela sua impressionante floração estival, em fogosos cachos de flores vermelhas.
Sob a argêntea copa de uma europeia e frondosa tília-prateada (Tilia tomentosa), repleta de flores, que muito em breve abririam, perfumando o jardim com um inebriante e doce aroma melífero, fomos admirar alguns lusitânicos azereiros (Prunus lusitanica), uma das árvores mais bonitas da flora portuguesa. De folhas semelhantes às do loureiro (Laurus nobilis), mas de aroma muito diferente, produzem sublimes florações, na forma de longos cachos de flores brancas, que enfeitam as suas copas na primavera. Apesar da floração estar, então, já quase no final, houve ainda oportunidade de ver algumas das flores, bem como os pequenos frutos, semelhantes a azeitonas, que começavam a aparecer.
Sem muito ter de caminhar, fomos terminar a visita aos “pés” de uma graciosa tamareira-do-senegal (Phoenix reclinata), nativa da África tropical, Madagáscar e Península Arábica. Multicaule, como é habitual na espécie, e muito bem “reclinata”; curvando-se, ou inclinando-se, de uma forma bastante descontraída. Mas onde estariam, então, as tâmaras boavisteiras? Ora bem, sendo todas as Phoenix dioicas, com machos e fêmeas em plantas diferentes, e sendo, muito possivelmente, o exemplar da Boavista um macho, dificilmente alguma vez saborearemos tâmaras produzidas por esta tamareira! Um pequenino amargo de boca, insuficiente para arruinar uma tarde, até então, plena de doçura.
Com o tempo a fugir, corremos, literalmente, até aos portões do Cemitério de Agramonte, o maior, o mais antigo e o terceiro e último espaço a visitar naquela tarde. Deve o seu nome à antiga Quinta de Agramonte, em cujos terrenos foi inicialmente instalado, com grande urgência devido à epidemia de cólera que, em 1855, se alastrava pela cidade. Seria construído em tempo recorde e benzido e inaugurado a dois de setembro desse mesmo ano. É o segundo cemitério público mais antigo do Porto, pleno de monumentos, pétreos e verdes, dignos de admiração.
Já dentro do cemitério, a primeira paragem fez-se junto à capela, onde visitámos um cipreste-japonês (Chamaecyparis obutsa), da variedade ‘Nana Gracilis’, mais pequena, de copa mais compacta e graciosa do que a espécie-tipo, o Hinoki. Destacavam-se o tronco retorcido, deveras escultural, de tonalidades vermelho-acastanhadas, e as folhas dispostas em camadas achatadas, fazendo lembras conchas ou pequenos leques.
Logo atrás da capela encontrámos um formoso cedro-do-atlas-de-folhas-azuis (Cedrus atlantica ‘Glauca’). Nativo do norte de África, tal como a espécie-tipo visitada no início do passeio. Exibia um soberbo manto, de inconfundíveis folhas em forma de agulha, de um invulgar tom azulado.
A curta distância, um grupo de grandes e asiáticas mélias (Melia azedarach) disputava a nossa atenção. Não nos fizemos rogados e até lá fomos para observar, e cheirar, as suas delicadas panículas de flores lilases, espreitando por entre copas muito arejadas, de folhas semelhantes às do freixo. Lá mais para o outono, encher-se-ão de pequenos e roliços frutos, muito vistosos, de cor amarela ou alaranjada.
Após uma pequena caminhada pelo cemitério, parámos junto de um par de grandes nogueiras-negras (Juglans nigra), nativas do centro/este da América do Norte. Não tinham ainda frutos para nos mostrarem. No entanto, por entre a sua folhagem pendia um sem número de amentilhos, onde se agrupava uma miríade de pequeninas flores masculinas. As femininas também por lá já estariam, mas difíceis de observar a tão grande altura. As folhas, então de um verde-claro-intenso, tornar-se-ão amarelo-douradas no outono, num espetáculo de grande beleza, com o alto patrocínio da Mãe Natureza.
Dali, seguimos por uma longa alameda ladeada por impressionantes tulipeiros-da-virgínia (Liriodendron tulipifera). Numa breve paragem, admirámos as invulgares, e sublimes, folhas e flores desses gigantes norte-americanos. Um pouco mais à frente, deixámo-nos encantar pelas panículas de flores brancas e plumosas, de muito agradável aroma, de um europeu freixo-de-flor (Fraxinus ornus). Quando chegar o outono, será a vez da sua folhagem amarelo-dourada, violácea ou avermelhada monopolizar toda a atenção.
Não muito depois, tivemos a oportunidade de vislumbrar um pequeno cone de coloração verde-vivo, empoleirado nos ramos de um cedro-do-líbano (Cedrus libani), bem como de apreciar as enormes e bem-cheirosas flores brancas, de pétalas comestíveis, de duas veneráveis magnólias-de-flores-grandes (Magnolia grandiflora). Sem demoras, fomos conhecer uma belíssima olaia (Cercis siliquastrum), ali muito perto implantada. Esta pequena árvore, nativa da região mediterrânica oriental e do Médio Oriente, é detentora de uma deslumbrante floração primaveril, normalmente em tons de um rosa muito forte, que surge antes das folhas, preenchendo inteiramente a copa. Apesar de muito procurarmos, já nem uma conseguimos observar, o “palco” estava, então, já ocupado pelas suas afetuosas folhas em forma de coração.
No Cemitério Privativo da Ordem da Trindade, fomos ao encontro de uma outra trindade; de coníferas asiáticas e europeias. A primeira, asiática, foi observada ainda antes de entrarmos; um reluzente cipreste-japonês-dourado (Chamaecyparis obutsa ‘Aurea’), exibindo a sua distintiva folhagem jovem, de coloração amarelo-dourada. Por entre a folhagem viam-se, ainda, os pequeninos cones masculinos, acompanhados pelos femininos, jovens e roliços. As outras duas coníferas, fomos vê-las já no interior. A primeira foi um junípero-da-china-variegado (Juniperus chinensis ‘Variegata’). De porte colunar, este nativo do Japão, da Mongólia e da China caracteriza-se pela sua folhagem verde-azulada, sarapintada por manchas branco-cremosas. Apresenta, também, folhas em duas formas distintas: as juvenis em forma de agulha e as adultas em forma de escama, pormenor que conseguimos, igualmente, observar. A segunda, ou melhor dizendo, as segundas, foram um sóbrio conjunto de quatro teixos-irlandeses (Taxus baccata ‘Fastigiata’). Originários da Irlanda do Norte, distinguem-se do “nosso” teixo (Taxus baccata) pelo seu porte colunar, que lhes empresta, ali, uma aparência quase divina, conduzindo as almas até ao céu.
Com a visita quase a terminar, caminhámos até um imperdível, de tão invulgar que é, ginkgo (Ginkgo biloba), também conhecido, entre nós, por nogueira-do-japão. Ao contrário do que possa parecer, a origem da espécie não é japonesa, mas sim chinesa. Esta inexatidão geográfica no nome tem uma boa explicação, pois prende-se com o facto de ter sido no Japão que os europeus, pela primeira vez, a avistaram. Pela delicadeza das suas folhas, em forma de pequeninos leques, bilobadas, de coloração dourada, vibrante e luminosa no outono, singulares no mundo vegetal, são árvores imensamente populares em parques, jardins e até em arruamentos. Como outras observadas ao longo do passeio, são dioicas, com géneros separados em indivíduos diferentes. Os pequenos frutos que, então, se avistavam dispersos por entre folhagem, atestavam a feminilidade do ginkgo de Agramonte; um segundo bom motivo para a revisitarmos no outono, apesar do seu pungente aroma… A invulgaridade deste exemplar, no entanto, não de deve a estes pequenos frutos, que encerram uma semente comestível, mas sim nas folhas enroladas, em forma de cone, igualmente dispersas pela copa. Tratava-se, portanto, de um Ginkgo biloba, mas da variedade ‘Tubifolia’.
Já transposto o grande portão do cemitério, tempo houve, ainda, para uma última paragem, onde se admiraram alguns majestosos tulipeiros-da-virgínia-de-folhas-variegadas (Liriodendron tulipifera ‘Aureomarginatum’), cujas folhas, completamente verdes na espécie-tipo, se apresentam marginadas de um amarelo-pálido rodeando um centro verde.
Findava-se assim o passeio que, ao longo de uma tarde passada em muito boa companhia, nos levou à descoberta de algumas das mais encantadoras árvores da Boavista. Continuaremos no próximo dia 20 de junho no Jardim do Passeio Alegre, igualmente com boas vistas, mas temperadas com um cheirinho a maresia.
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A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto, e enquadra-se no projeto Florestas Urbanas Nativas no Porto – FUN Porto.

