A 22 de agosto, numa ensolarada tarde de verão, respirava-se um ambiente propício à realização de uma nova e prazenteira caminhada pela cidade, que nos levaria ao encontro de alguns dos seus mais ilustres e verdejantes “residentes” no Jardim de São Lázaro, na Praça da Alegria e no Cemitério do Prado do Repouso.
O ponto de partida da quinta visita da quarta edição da Rota das Árvores do Porto foi o acolhedor Jardim de São Lázaro, ou Jardim Marques de Oliveira, o primeiro jardim público do Porto. Mandado construir por D. Pedro IV em 1833, no antigo Campo de São Lázaro, foi desenhado por João José Gomes, o primeiro jardineiro municipal da cidade, e inaugurado a 4 de maio de 1834, dia do aniversário de D. Maria II, filha primogénita de D. Pedro. Apesar da sua abertura à população em 1834, a sua construção seria dada por concluída apenas em 1841. Com quase dois séculos de vida, e por várias vezes intervencionado, manteve até aos nossos dias o gradeamento que o delimita e os quatros grandes portões de esquina através dos quais se lhe acede.
Foi justamente junto ao férreo gradeamento que fomos conhecer a primeira árvore da tarde, uma das muitas tílias do jardim, naquele caso, em particular, uma europeia tília-de-folhas-grandes (Tilia platyphyllos). Por entre as folhas, grandes e aveludadas, pendiam os pequenos frutos e as brácteas — as folhas modificadas que auxiliam a dispersão das sementes — desta árvore, com os quais se prepara não só o nosso tão conhecido “chá” de tília, mas também um curioso e enigmático “chocolate” de tília.
Da europeia tília seguimos até uma australiana palmeira, mais concretamente uma palmeira-de-leque-da-Austrália (Livistona australis), que nos esperava no lado oposto do jardim. De palmito comestível, é a espécie de palmeira australiana com distribuição natural mais a sul do país. Exibia uma coroa densa e globosa e, no tronco, ou espique, as características cicatrizes das folhas antigas, em forma de anel. Estava muito bem acompanhada por dois grandes cedros-do-Atlas (Cedrus atlantica), nativos da norte-africana cordilheira do Atlas e muito presentes em jardins um pouco por todo o mundo pela sua extraordinária beleza. Com o aproximar do outono, produzem uma miríade de pequenos cones masculinos, inicialmente de tonalidade verde-azulada e levantados sobre os ramos, algo que tivemos a oportunidade de observar, bem como um jovem cone feminino, muito bem escondido por entre a delicada e pontiaguda folhagem.
Voltando a atravessar o jardim, parámos, de seguida, junto à orla exterior de um grande círculo formado por 12 monumentais magnólias-de-flores-grandes (Magnolia grandiflora), dispostas em redor de um pequeno lago circular e classificadas como de Interesse Público desde 2005. Tal como os cedros-do-atlas, estas magnólias, nativas do sudoeste dos Estados Unidos da América, são espécie muito assídua nos nossos jardins, sobretudo pelas suas grandes e aromáticas flores brancas que começam a surgir no final da primavera. Ali, conseguimos, ainda, admirar uma delas, em grande contraste cromático com as folhas, verde-escuras e luzidias na face superior e acobreadas e aveludadas na inferior. Mais discretas, embora abundantes, avistavam-se também as “pinhas” que produzem estas árvores. Lá mais para o final do outono adquirirão uma bonita tonalidade rosada e revelarão as suas vistosas sementes, de um surpreendente vermelho-vivo.
Depois da Europa, da Oceânia, de África e da América, faltava-nos dar um pulinho até à Ásia. Junto a um dos portões do jardim lá estava, então, uma muito digna representante desse continente, que fomos (re)conhecer. Tratava-se de uma mélia (Melia azedarach), igualmente entre nós conhecida por amargoseira, conteira e lilás-das-índias, designações associadas aos seus frutos e às suas flores. Passada que estava a floração, mostrou-nos a sua copa frondosa de folhas semelhantes às dos freixos, enfeitada por, ainda, cromaticamente recatados frutos, pequenos e roliços. Com a chegada do outono, as folhas adquirirão uma sublime coloração amarelo-dourada e os frutos, em tempos empregues no fabrico de rosários, vistosas tonalidades amarelo-alaranjadas, que assim se manterão até à primavera.
Após este encontro, despedimo-nos do Jardim de São Lázaro e seguimos até à Praça da Alegria, pequena em tamanho, mas grande em formosura, que lhe é emprestada pelos primorosos lódãos (Celtis australis) que por lá residem. Nativas da região mediterrânica, são árvores de grande longevidade, podendo atingir 600 anos de idade, e das mais bonitas que podemos, naturalmente, encontrar no nosso país. Sobre os esguios troncos, de casca lisa e acinzentada, apresentavam copas frondosas, de folhas ovado-lanceoladas, ásperas e de margem serrada. A sua natureza caducifólia começava, então, a evidenciar-se, vendo-se, aqui e ali, algumas folhas já manchadas de um amarelo-esverdeado. Mais difícil de encontrar foram as suas “ginginhas-de-rei”, os pequeninos frutos arredondados que produz no verão, comestíveis e levemente adocicados. Com algum esforço e boa visão, lá se avistaram alguns, muito bem escondidos por entre a folhagem.
Cumprimentados que estavam os lódãos, continuámos até à próxima, e derradeira, paragem da tarde; o Cemitério do Prado do Repouso. Erigido nos terrenos da antiga Quinta do Prado do Bispo, foi o primeiro cemitério público da cidade, inaugurado em 1839. Com uma área de aproximadamente 10 hectares, é o segundo maior cemitério da cidade, só, por pouco, ultrapassado pelo de Agramonte. É um espaço intensamente marcado por uma solene monumentalidade, de índole ora pétrea, ora natural, merecedora de todo o nosso respeito e admiração.
Entrando pelo portão sul, logo encontrámos um jovem carvalho-alvarinho (Quercus robur) ou, talvez, galego (Quercus orocantabrica), um nativo do noroeste de Portugal e de outras partes da Europa. Pela altura da visita, chamava a nossa atenção a sua farta frutificação, encontrando-se a copa carregada de grandes e gordas bolotas, algo que acontece apenas nos anos em que a árvore encontra as condições ambientais ótimas para suportar tamanho dispêndio de energia.
Mal tínhamos ainda acabado de admirar o carvalho e já ali, a dois passos de distância, nos chamavam dois dos muitos gigantes que pelo cemitério se podem encontrar: uma sequoia-sempre-verde (Sequoia sempervirens) e uma araucária-de-Queensland (Araucaria bidwillii). Apesar de muito diferentes, têm em comum o facto de, nas suas áreas de distribuição natural, ambas crescerem nas orlas do oceano Pacífico, mas a milhares de quilómetros de distância uma da outra, não fosse a primeira nativa da costa norte da Califórnia, nos Estados Unidos da América, e a segunda da costa de Queensland, na Austrália.
Junto à sequoia houve oportunidade de observar as suas folhas, os pequenos e esféricos cones, quer os imaturos, verdes e fechados, quer os maduros, castanhos e abertos, as pequeninas e extraordinárias sementes, que têm a capacidade de gerar as árvores mais altas do mundo, e a sua casca esponjosa e fibrosa, de coloração castanho-avermelhada. No que toca à araucária, observámos os seus esguios cones masculinos e, bem protegidas por um formidável espinho apical, algumas das grandes escamas das suas gigantescas pinhas, que podem atingir uma altura de 30 cm, mais de 20 cm de diâmetro e um peso de 10 kg. No interior das escamas, conseguiam observar-se enormes pinhões, comestíveis e de sabor e textura semelhantes ao das nossas mais familiares castanhas.
Abrigados na sombra destes gigantes, encontrava-se um muito vistoso nério (Nerium oleander), igualmente conhecido por cevadilha ou loendro. Nativo do sul de Portugal, é no verão que exibe em pleno a sua maravilhosa floração. O que observámos exibia bonitas flores cor-de-rosa, a cor mais comum, mas que podem igualmente ocorrer em branco, vermelho e amarelo. Fazia-lhe companhia um sóbrio teixo-irlandês (Taxus baccata ‘Fastigiata’) que, acredita-se, terá evoluído na Irlanda do Norte a partir do teixo-comum, o “nosso” teixo (Taxus baccata), do qual se distingue pelo seu porte colunar.
Deixando para trás este bonito par de europeus, fomos, de seguida, ao encontro de um outro, não menos belo, de asiáticas árvores-de-Júpiter (Lagerstroemia indica). São presença usual em muitos dos jardins do Porto e, no verão, quando nos mostram a sua profusa, delicada e colorida floração, percebe-se bem porquê. As duas que tivemos o prazer de admirar vestiam-se de cores diferentes; uma de rosa e a outra de lilás, tornando a visita que lhes fizemos ainda mais prazerosa. Como não podia deixar de ser, admirámos-lhes, igualmente, os seus esbeltos e marmoreados troncos e ficámos a imaginar o quão bonita ficará a sua folhagem no outono, quando o verde se metamorfosear em tons de amarelo, laranja e vermelho.
Ali bem perto vegetavam alguns bordos-comuns (Acer campestre), uma espécie duplamente europeia e norte-africana. Tal como o carvalho avistado à entrada do cemitério, também estes bordos ostentavam uma prolífica produção de frutos, neste caso de grandes pares de sâmaras que salpicavam a copa de folhas longamente pecioladas e profundamente lobadas.
Continuando o passeio, seguimos até à longa alameda dos ciprestes (Cupressus sempervirens) que, como o nome bem indica, se encontra ladeada por duas filas destas árvores nativas da orla oriental do Mediterrâneo. São uma das espécies mais plantadas nos nossos cemitérios que, por ali, se apresentavam em duas variedades bem distintas: a mais comum, e reconhecível, com a copa de formato fusiforme, fechada e compacta, a Cupressus sempervirens var. sempervirens, e uma outra, de copa mais ampla e aberta, a Cupressus sempervirens var. horizontalis. Para além das suas formas, observámos também as suas gálbulas — os cones lenhosos e globosos que produzem — em vários estados de maturação.
Da alameda dos ciprestes passámos à alameda dos tulipeiros-da-Virgínia (Liriodendron tulipífera), caminhando para a entrada norte do cemitério sob as frondosas copas de autênticos e impressionantes gigantes, dos maiores que se podem ver na cidade. Nativas da costa leste dos Estados Unidos da América, é no final da primavera e no início do verão que estas imponentes árvores mais nos encantam, quando nos mostram as suas belíssimas e surpreendentes “tulipas”. No entanto, no outono, presenteiam-nos com um outro, não menos grandioso, espetáculo, quando a sua inusitada folhagem adquire uma gloriosa coloração amarelo-dourada.
No final da alameda encontrámos algumas, também monumentais, japoneiras ou camélias (Camellia japonica), nativas da China, do Japão e da Coreia, por aquela altura sem as suas tão afamadas flores, que tanta cor e alegria dão aos nossos jardins nos dias mais curtos, frios e sombrios do inverno.
Já no exterior do cemitério, pois o tempo corria e os portões estavam prestes a fechar, observámos duas espécies de altaneiras palmeiras americanas; uma do norte, a palmeira-de-saia-da-Califórnia (Washingtonia filifera), e outra do sul, o jerivá (Syagrus romanzoffiana).
A primeira, nativa dos Estados Unidos da América e do México, exibia a sua coroa de folhas em forma de grandes leques, por onde espreitavam algumas espigas, tardias, de flores. A segunda, nativa da Mata Atlântica brasileira, da Argentina, do Uruguai e do Paraguai, mostrava uma coroa de folhas de aparência plumosa e, por entre as mesmas dependurados, generosos cachos de frutos, comestíveis e doces.
Com o passeio a terminar, fomos ver ainda mais um par de árvores que, apesar de semelhantes, pertenciam a espécies diferentes: o castanheiro-da-Índia (Aesculus hippocastanum), um nativo não da Índia, mas sim da Grécia, da Albânia e da Bulgária, e o castanheiro-da-índia-de-flores-rosadas (Aesculus x carnea), um híbrido entre o primeiro e o olho-de-veado-vermelho (Aesculus pavia), um nativo do sudeste dos Estados Unidos da América. Na sombra do castanheiro-da-Índia vimos as diferenças entre as folhas, a casca e os “ouriços” de um e do outro, e falámos sobre as suas vistosas panículas de flores primaveris, brancas no primeiro e rosadas no segundo.
Com todo o grupo reunido sob a majestosa copa do castanheiro-da-Índia, aproveitámos a oportunidade para um momento de reflexão, lançando, então, a questão:
“Se esta árvore desaparecesse amanhã, o que perderíamos?”
Inicialmente de forma tímida, mas rapidamente em catadupa, os participantes foram identificando os múltiplos benefícios que estes seres vivos nos proporcionam diariamente: produzem oxigénio, capturam carbono, refrescam o ar, dão sombra, acolhem aves e insetos, filtram poluentes, reduzem o ruído, protegem o solo, contribuem para o bem-estar e embelezam a paisagem.
Esta conversa permitiu reforçar a ideia de que as árvores são muito mais do que elementos decorativos do espaço urbano. São verdadeiras infraestruturas naturais, essenciais para o equilíbrio ecológico, a adaptação às alterações climáticas, a conservação da biodiversidade e a promoção da saúde e do bem-estar das pessoas.
A reflexão final conduziu a uma conclusão simples, mas poderosa: proteger e valorizar as árvores é proteger a nossa saúde, a biodiversidade e a qualidade de vida das gerações presentes e futuras.
Dava-se, assim, por concluído tão frutífero passeio, mas que continuará a 19 de setembro, pelas margens da Ribeira da Asprela.
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