Árvores do Campo Alegre: as que nos fazem sorrir

Árvores do Campo Alegre: as que nos fazem sorrir

As quintas de recreio são ainda hoje uma marca indelével das famílias abastadas, muitas provenientes de outras paragens e ligadas ao comércio do doce néctar produzido no vale do imponente rio Douro, que ao longo de vários séculos se instalaram na cidade do Porto. Nelas, os seus abastados proprietários construíram não só faustosas residências mas também belos jardins, repletos de espécies exóticas ornamentais, nomeadamente aquelas que surgem durante o século XIX e início do século XX ao longo da rua do Campo Alegre e suas proximidades. O gosto pelas plantas e o colecionismo botânico estavam então em voga e não se poupariam esforços em criar, por vezes, verdadeiros jardins botânicos, que sobrevivem em grande parte, nalguns casos, até aos nossos dias.

E foi precisamente aí que teve lugar, no dia 25 de novembro, a quinta e última visita da Rota das Árvores do Porto 2017, com o outono já bem instalado na cidade e com o inverno a aproximar-se a passos largos.

A visita iniciou-se nos jardins da casa de Primo Madeira, construída em finais do século XIX pelo Conselheiro Pedro Maria da Fonseca Araújo. O palacete seria posteriormente intervencionado por Marques da Silva, grande arquiteto portuense, aquando da sua aquisição por Primo Monteiro Madeira. Atualmente acolhe o Clube Universitário do Porto, património da Universidade do Porto, tal como as casas Burmester e Andresen (Jardim Botânico), que seriam também visitadas ao longo da tarde.

Sendo este um jardim de inspiração romântica, estava dado o mote para nos apaixonarmos nesta bela tarde de outono… e não foi preciso caminhar muito; quem não se perderia de amores por um, ou melhor, uma bela ginkgo (Ginkgo biloba), que se pavoneava com a sua belíssima indumentária outonal logo ali atrás da casa? Ninguém, certamente! Completamente embevecidos, lá seguimos pelo jardim fora em busca de novas paixões. Ali bem perto um cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica) já nos piscava o olho, e não nos fizemos rogados… esta imponente árvore é uma das mais belas do jardim, e umas das três já classificadas que aí podemos encontrar.

Por entre sequoias (Sequoia sempervirens) e metrosíderos (Metrosideros excelsa), num salto chegámos à seguinte, um belíssimo tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera) com mais de 20 metros de altura, muitíssimo bem acompanhado pelo também classificado plátano (Platanus x acerifolia), cuja copa, com 24 m de diâmetro, é a maior que podemos encontrar no jardim. As camélias (Camellia japonica), rainhas do inverno, começavam também já a mostrar o seu colorido, e foi percorrendo um túnel formado pelas suas ramadas que seguimos viagem. Junto à estufa oitocentista, um ainda pequeno, mas nem por isso menos vistoso, carvalho-americano (Quercus rubra) enfeitiçava-nos com os seus vibrantes vermelhos outonais, e um outro plátano (Platanus x acerifolia) com a sua excelsa altura. As rendilhadas folhas de um falso-cipreste-anão (Chamaecyparis obtusa), as brilhantes de um oleastro (Elaeagnus pungens) e as belas, mas infelizmente severamente invasoras, frutificações cor-de-laranja das falsas-árvores-do-incenso (Pittosporum undulatum) guiar-nos-iam até ao portão; estava na hora de deixar o Primo Madeira e de ir conhecer o resto da “família”.

O jardim da Casa Burmester, apesar de presentemente muito adulterado face aos seus tempos áureos, retém ainda alguns exemplares de grande beleza. Prova disso são as cinco árvores, todas centenárias, que se encontram em vias de classificação e que são prova da importância botânica que este espaço ainda ocupa no conjunto dos jardins históricos da cidade. Junto à entrada e à antiga garagem da família encontra-se a primeira, um relativamente comum na cidade castanheiro-da-Índia (Aesculus hippocastanum) mas que aqui se apresenta com um porte excecional, praticamente sem intervenção humana. Outra, esta bem menos frequente na Invicta, é um cedro-do-Himalaia (Cedrus deodara). Com quase 24 metros de altura, será eventualmente o maior que existe na cidade. Contornando o belo palacete, fomos em busca das restantes três; uma imponente, e que com os seus 33 metros de altura será, talvez, a mais alta da cidade, araucária-de-Norfolk (Araucaria heterophylla), um magnífico tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera) com quase 35 metros de altura e um não menos soberbo teixo (Taxus baccata) com mais de 17 metros de diâmetro de copa.

Mas nem só de árvores em vias de classificação vive este jardim, muito mais há para admirar. Que o digam a magnífica faia-pendula (Fagus sylvatica ‘Pendula’), o altaneiro metrosídero (Metrosideros robusta), os bordos-do-Japão (Acer palmatum), os liquidâmbares (Liquidambar styraciflua) e os rododendros-arbóreos (Rhododendron arboreum) com as suas impressionantes paletas de cor e florações outonais, o monumental medronheiro (Arbutus unedo) e a altaneira bunia-bunia (Araucaria bidwilli)… um verdadeiro jardim botânico…

E falando em jardins botânicos, foi precisamente para lá que nos dirigimos de seguida, pois logo ali ao lado a magnífica casa dos Andresen acolhe aquele que é hoje o, não menos magnífico, Jardim Botânico do Porto. Antiga propriedade da Ordem de Cristo, foram vários os seus donos até à aquisição, em 1895, por João Henrique Andresen Júnior que a mantém na família até 1949, sendo então adquirida pelo Estado Português.

É certamente um dos mais belos e conhecidos jardins históricos do Porto, um jardim literário, mágico… Com a Floresta no pensamento, lá partimos então à descoberta de algumas das árvores e recantos desta “floresta” que serviram de inspiração a Sophia de Mello Breyner Andresen. A escolha não seria fácil, tantas são as maravilhosas árvores deste jardim, mas não houve forma de ficar indiferente ao magnífico, e invulgar, carvalho-das-telhas (Quercus imbricaria), aos seus companheiros escarlates (Quercus coccinea) e muito menos ao majestoso conjunto de imponentes e esculturais carpas-europeias (Carpinus betulus) que se aninham no fundo do jardim. Daqui fomos ao encontro das 3 raras bischofias (Bischofia javanica), em vias de classificação, não sem antes passar por uma dourada família de ginkgos (Ginkgo biloba) e por uma das maiores sequoias (Sequoia sempervirens) do Porto.

Partimos então à descoberta do medronheiro-do-Texas (Arbutus xalapensis), também em vias de classificação, parando aqui e ali para nos maravilharmos com a floração das paineiras-barrigudas (Ceiba speciosa), com os tons avermelhados do majestoso liquidâmbar (Liquidambar styraciflua) junto à casa, e do magnífico bordo-do-Japão (Acer palmatum) junto ao Jardim do Xisto. Já de saída, houve ainda lugar para uma última paragem junto ao “Rapaz de Bronze” e à “árvore do papel” de Sofia; uma portentosa neve-de-verão (Melaleuca-linariifolia), solenemente emoldurada por cedros-do-Atlas (Cedrus atlantica), azevinhos (Ilex aquifolium) e araucárias, de Norfolk e do Paraná (Araucaria heterophylla e angustifolia).

A tarde já ia avançada, esperava-nos ainda outro jardim; o dos Allen. Mandada construir pelo 3º Visconde de Villar d’Allen nos últimos anos da década de 1920, sob projeto de Marques da Silva, e hoje afeta à Direção Regional de Cultura do Norte, é um belo exemplo de arquitetura burguesa do Porto. Logo à entrada o olhar prende-se nos dois imponentes alinhamentos de cedros-do-Líbano (Cedrus libani), que nos convidam a avançar e deambular livremente pelo jardim. Assim o fizemos, para logo nos surpreendermos com um invulgar arranjo de diospireiros (Diospyros kaki) em volta do espelho de água, e com uma bonita magnólia-de-soulange (Magnolia x soulangena) que, ansiosa pela primavera, mostrava já, aqui e ali, belos “cachos” das magnólias que lhe dão o nome.

Descemos então a escadaria que dá acesso ao grande espaço nas traseiras da casa, onde se encontram os maiores tesouros deste jardim. E não é fácil ignorá-los, tal é a sua presença… à nossa esquerda, um nobre casal dá-nos as boas vindas; um charmoso tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera) e uma elegante faia-de-folhas-vermelhas (Fagus sylvatica var. purpurea), mais à frente um grupo de anciãs tílias-pendulas (Tilia tomentosa ‘Petiolaris’) convidavam a repousar, mas já ninguém conseguia esconder a ânsia de visitar o mais nobre residente deste jardim, o seu (anda mais) magnífico tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera), em vias de classificação e muito possivelmente o mais notável da cidade. E foi aí, sob a sua majestosa copa que se eleva a quase 32 metros de altura e com 30 metros de diâmetro, abrigados pelos seus esbeltos ramos que beijam o chão, que demos por terminada a segunda edição da Rota das Árvores do Porto, que de maio a novembro nos levou a conhecer algumas das mais belas árvores que esta cidade tem o prestígio de acolher.

Até breve!

FOTOS Créditos: ©2017CRE.Porto.ampereira e ©2017CRE.Porto.malmeida

A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto. São parceiros da Rota das Árvores do Porto: Circulo Universitário do Porto, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), Condomínio da Baronesa do Seixo, Direção Regional de Cultura do Norte (Casa das Artes), Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Jardim Botânico do Porto, Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto e Pestana Palácio do Freixo. Colabora o Arquiteto João Almeida.

 

 

2017-12-21T12:27:43+00:00 18 Dezembro, 2017|rota das árvores do porto 2017|