Árvores de Cedofeita: segredos bem guardados

Árvores de Cedofeita: segredos bem guardados

Nos momentos que antecedem cada nova Rota das Árvores cresce nos participantes uma ânsia, que se transmite num burburinho e num levantar de cabeças para as árvores circundantes. Conseguimos adivinhar alguns pensamentos: qual será a primeira árvore? Que árvore é esta? Será antiga?

Foi neste curioso ambiente que começou a rota Árvores de Cedofeita no coreto do Jardim da Cordoaria, no passado dia 17 de junho. A visita começou por aí, no originalmente romântico Jardim de João Chagas.

Apesar das alterações introduzidas pelas obras da Porto 2001, o arvoredo continua a ser uma referência no contexto urbano do Porto, e locais e visitantes não dispensam os bancos, sombra e vista relaxante para alguns momentos de lazer e contemplação. A maior parte das árvores não tem os 152 anos do jardim (projetado por Émile David), e poucas terão sobrevivido ao ciclone que varreu o jardim em 1941, mas desde então o conjunto arbóreo fortaleceu-se e constitui hoje um marco da cidade do Porto.

No Jardim da Cordoaria destaca-se obviamente a Alameda dos Plátanos. Esta Alameda tem 37 plátanos (Platanus x acerifolia) que constituem um conjunto classificado. A sua fisionomia é singular já que uma doença lhes deformou a base, dando-lhes um ar de pata de elefante. As árvores, no entanto, estão perfeitamente saudáveis.

Junto ao lago tivemos oportunidade de comparar dois tipos de cedros, o Cedro-do-Líbano (Cedrus libani) e o Cedro-do-Atlas (Cedrus atlantica) que, lado a lado, nos facilitaram a aprendizagem sobre como os distinguir.

Junto a estas encontra-se uma bunia-bunia (Araucaria bidwilli), também classificada, que com os seus 40 metros é a árvore mais alta do jardim e uma das mais altas do Porto. Tem mais de 140 anos e é uma espécie nativa da Austrália.

A caminho do Jardim do Carregal parámos no Largo Abel Salazar, fronteiro à entrada do Hospital de Santo António, onde apreciámos um dos poucos carvalhais (Quercus robur) que restam na cidade. Parece claramente uma pequena mancha que sobreviveu ao tempo e ao asfalto.

Chegados ao Jardim do Carregal (cujo nome oficial é Jardim de Carrilho Videira), João Almeida confrontou-nos com uma pergunta: o que torna este jardim diferente dos outros? Surgiram bastantes hipóteses, mas o que de facto diferencia este jardim dos outros são as coníferas, em grande número, que se tresmalham no espaço. Contam-se sequoias (Sequoia sempervirens e Sequoiadendron giganteum), araucárias-de-Norfolk (Araucaria heterophylla) e bunia-bunia (Araucaria bidwilii), entre outras. Apesar de mais recente que o da Cordoaria (120 anos), este jardim projetado por Jerónimo Monteiro da Costa mantém o carácter romântico, bastante claro na sua tradicional ponte sobre o lago e caminhos serpenteantes.

Com o calor a apertar, seguimos em direção à rua de Cedofeita à procura de mais árvores e história. Encontrámo-las na antiga Quinta dos Carvalhos do Monte, que foi durante muitos anos a Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e é agora o Pólo das Indústrias Criativas do UPTEC. E apesar da grande beleza e história das árvores que nos esperavam, a tristeza foi muita. Lá se encontram dois belíssimos teixos (Taxus baccata), que poderão ter até 400 anos (um deles tem o segundo maior perímetro do país). Mas ambas as árvores – mais velhas que a Torre dos Clérigos – não estão em bom estado de saúde, o que se pode verificar pelos ramos secos e pela rebentação resultante do stresse. Sabemos, no entanto, que têm sido feitos esforços no sentido da sua conservação.

No último jardim que visitámos, pelo contrário, as árvores apresentavam uma saúde fora de série e algumas eram de facto notáveis, como nunca vimos. Este jardim era o da Baronesa do Seixo, também projetado por Émile David, que neste momento está integrado num complexo habitacional de acesso restrito. Foi por isso um raro privilégio conhecer de perto o realmente excelso metrosídero (Metrosideros excelsa), repleto de raízes aéreas e uma copa que domina o jardim. Também notável é o ginkgo (Ginkgo biloba), ou mais precisamente o circulo de ginkgos (28), que se encontra num canto do jardim. A sua configuração circular pode ter tido origem, segundo João Almeida, numa árvore única que terá morrido e deixou descendentes, à volta do tronco original. Não há certezas quanto a isto, mas parece ser uma explicação acertada. Também se destacam a araucária-de-Norfolk (Araucaria heterophylla), junto à rua de Cedofeita, e a bunia-bunia (Araucaria bidwilii), no outro extremo do jardim, ambas centenárias e monumentais.

E se a sua leitura chegou até aqui vamos contar-lhe um segredo: quando percorrer a Rua de Cedofeita páre no meio, num ponto onde consiga ver as duas extremidades da rua. Veja que se destacam duas ‘torres’ opostas: a dos Clérigos e a bunia-bunia da Baronesa do Seixo 🙂

A Rota das Árvores do Porto continua no próximo dia 9 de julho, em Campanhã e Santo Ildefonso.

FOTOS | Créditos: ©2017CRE.Porto rruiz, ©2017CRE.Porto malmeida, ©2017CRE.Porto mpinto e ©2017CRE.Porto ampereira

A “Rota das Árvores do Porto” é uma iniciativa do Município do Porto integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto. São parceiros da Rota das Árvores do Porto: Circulo Universitário do Porto, Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Norte (CCDR-N), Condomínio da Baronesa do Seixo, Direção Regional de Cultura do Norte (Casa das Artes), Faculdade de Arquitetura da Universidade do Porto, Jardim Botânico do Porto, Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto e Pestana Palácio do Freixo. Colabora o Arquiteto João Almeida.

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2017-07-03T09:24:28+00:00 30 Junho, 2017|rota das árvores do porto 2017|