Árvores da Quinta da Conceição: miradouros sobre o Leça

Árvores da Quinta da Conceição: miradouros sobre o Leça

Paredes meias com o colorido e buliçoso Porto de Leixões, “atracado” sobre as plácidas águas do rio Leça, na solarenga tarde do passado dia 17 de novembro fomos conhecer alguns dos seus, “vizinhos”, habitualmente mais discretos, mas que nesta altura do ano com ele fazem par, envergando as suas também coloridas e vibrantes indumentárias outonais. Feitas que estavam as apresentações iniciais, lá partimos então à descoberta deste antigo território franciscano e dos seus mais de cinco séculos de história.

Descendo a longa escadaria que vence a encosta da margem direita do rio, a primeira paragem faz-se, apropriadamente, junto à capela de São Francisco, onde jaz o principal impulsionador da construção neste local do convento de Nossa Senhora da Conceição — Frei João da Póvoa, confessor de D. João II, Rei de Portugal e dos Algarves, e cognominado de “Príncipe Perfeito”.

Não menos perfeito que o nosso príncipe, um belo cedro — do Líbano — (Cedrus libani) vegeta junto à capela, com as suas verdes agulhas matizadas pelo “ouro em pó” libertado pelos seus cones masculinos nesta altura do ano. Logo abaixo, e fazendo-lhe companhia, encontra-se uma das maiores árvores possíveis de admirar no jardim; um cosmopolita plátano-híbrido (Platanus x hispanica), com as suas folhas douradas a lembrar estrelas contrastando contra o azul do firmamento. Deixando para trás este gigante, avançamos em direção ao Leça, e logo encontramos um grande metrosídero, ou árvore-de-fogo, (Metrosideros excelsa), um nativo da Nova Zelândia mas que em nos seus antípodas se sente em casa; e que nos meses mais quentes do ano nos presenteia com o a sua fogosa floração, agora adormecida.

Dali piscamos já o olho ao faustoso portal manuelino da igreja do desaparecido convento, ornamentado por meia dúzia de rubras folhas de uma americana vinha-virgem-da-Virgínia (Parthenocissus quinquefolia) e por um asiático rafiolépis (Rhaphiolepis umbellata), repleto de carnudos e suculentos frutos violáceos. Atravessamos o portal, abandonando a luz e entrando num outro mundo, mais sombrio, mas que o colorido outonal faz questão de iluminar. E fá-lo, logo ali, nas folhas douradas de um ainda bem composto tulipeiro-da-Virgínia (Liriodendron tulipifera). Passamos de seguida ao monumental claustro e, apoiados no seu também monumental e pétreo chafariz, admiramos não só a beleza deste antigo espaço monástico mas também das coloridas copas que sobre ele se assomam; a do tulipeiro já nosso conhecido, e a de um luminoso e rendilhado freixo-de-folhas-estreitas (Fraxinus angustifolia).

A viagem continua e, desfilando por entre coloridos e majestosos carvalhos-do-pântano (Quercus palustris) e esguios e lombardos choupos-negros (Populus nigra ‘Italica’), atingimos a alameda vermelha, em cujo centro se encontram outros dois belos chafarizes. A água marca aqui a sua presença; correndo vigorosamente de um e espelhando placidamente o outro e as árvores que ambos protegem e emolduram. Destacam-se os castanheiros, os nossos (Castanea sativa) e os outros, ditos da Índia, mas na realidade de paragens bem mais próximas (Aesculus hippocastanum), ambos exibindo já os tons e os frutos característicos da época e tendo por companhia um portentoso, ainda que outonalmente tímido, carvalho-alvarinho (Quercus robur).

A rematar formalmente esta formal alameda encontra-se outro dos gigantes da Quinta da Conceição; um admirável pinheiro-manso (Pinus pinea) com dezenas de metros de altura, que tal e qual um patriarca — verde — tudo vigia e protege. A seus pés, aninha-se um aromático louro-cerejo (Prunus laurocerasus) e, um pouco mais à frente, uma bonita e alegre família de luminosos e raros ulmeiros-da-Holanda (Ulmus × hollandica) e uma faia (Fagus sylvatica) cujas coloridas e delicadas folhas, trespassadas pela luz do sol, não conseguem passar despercebidas a quem por ela passa. Ao seu lado, e um pouco mais discreta, uma jovem magnólia-de-flores-grandes (Magnolia grandiflora) aguarda o calor do próximo verão, para nos deslumbrar com a sua floração e, então, tornar-se o centro de muitas atenções.

Continuamos a deambulação e chegamos à alameda amarela, repleta de tílias-de-folhas-grandes (Tilia platyphyllos) vestidas ainda com algumas folhas de coloração condizente com o lugar. Na outra ponta, já a chegar novamente à capela de São Francisco, o olhar prende-se uma vez mais nas folhas de outra faia e de um carvalho-americano (Quercus rubra), por lá mais conhecido por carvalho-vermelho.

A tarde ia já alta, mas havendo ainda vontade de visitar a vizinha Quinta de Santiago lá fomos, pausadamente, prestando pelo caminho os nossos cumprimentos — e mostrando a nossa admiração — a cedros-do-Bussaco (Cupressus lusitanica), verdadeiramente nem cedros nem lusitânicos, bordos (Acer pseudoplantanus), pitósporos-da-China (Pittosporum tobira), repletos de esféricos frutos amarelos que aqui e ali iam já revelando as vibrantes sementes alaranjadas no seu interior, e tílias-prateadas (Tilia tomentosa) agora já douradas.

Atravessando um frondoso bosquete de carvalhos-dos-pântanos, americanos e alvarinhos, e passado por outro colossal chafariz, chegamos finalmente ao belo palacete oitocentista que ocupa o centro da Quinta de Santiago, e de onde facilmente se avistavam já as três últimas visitas da tarde, cada uma oriunda do seu ponto no globo terrestre. A primeira, junto à casa, um nativo, magnífico e invulgar — pela dimensão — pilriteiro (Crataegus monogyna), um dos dois que neste espaço se podem observar. A segunda, o conjunto de butiás (Butia sp.), as palmeiras sul-americanas que durante o outono norte-hemisférico se engalanam de atraentes cachos de drupas alaranjadas. E, finalmente, a terceira, um esbelto e curvilíneo pinheiro-de-Cook (Araucaria columnaris), nativa da longínqua Nova Caledónia, no Pacífico, que segundo alguns entendidos, e por motivos ainda desconhecidos, se inclina sempre na direção do Equador…

A noite caía…. E tal como os franciscanos, o grupo foi também, lentamente, abandonando o lugar. As árvores como sempre, lá permanecem, geração após geração, à espera de uma próxima visita.

Relato escrito pelo guia da visita, João Almeida, a quem muito agradecemos.

FOTOS | Créditos: ©2018CRE.Porto rruiz, ©2018CRE.Porto malmeida

Esta visita guiada é uma iniciativa do Município de Matosinhos integrada no FUTURO – projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto. Colaborou o Arquiteto João Almeida.

2018-12-05T12:27:56+00:003 Dezembro, 2018|rota das árvores e florestas|
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